Quem sou eu

A Oficina tem como objetivo ampliar o olhar crítico dos educandos, instrumentalizando-lhes para uma inserção positiva no mercado de trabalho audiovisual.
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A extraordinária aventura vivida por Vládimir Maiakóvski no verão na Datcha

Querid@s,

Segue o poema de Maiakovski que lemos esta semana;

A Extraordinária Aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no Verão na Datcha

A tarde ardia em cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
¿Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!

E grito ao sol:

¿Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!

E grito ao sol:

¿Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?

Que mosca me mordeu!

É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostra medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
¿Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!

Lágrimas na ponta dos olhos

- o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro
o samovar:
Pois bem,
sente-se, astro!

Quem me mandou berrar ao sol

insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta²,
etc.
E o sol:
¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!¿
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
¿Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.

O muro das sombras,

prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.


1920 (tradução de Augusto de Campos)


Envio também um vídeo com o poema interpretado por Leonardo Brício, na peça Deserto Iluminado



E  um site maravilhoso (olha aí, pessoal de VI) de poesia concreta, com vídeo, aúdio, etc!

No site encontrei um vídeo com a interpretação do poema O Pulsar, de Augusto de Campos (o mesmo que traduziu o poema de Maiakóvski para o português) interpretado por Caetano Veloso!



Busquem o seu Sol e brilhem pra valer!
Desapeguem e deixem a raiva fluir e seguir embora!
Permitam o Sol do outro e façam valer o seu potencial!


Abraços fraternos,
Giba

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Soldados de chumbo

Querid@s,

Antes de sair para a festança de ano-novo, segue o último presente do G1. Infelizmente, não anotei e me deu branco (me ajudem, por favor!!!!) de quem nos trouxe este presente... O poema "Soldado de chumbo", de Serginho Poeta:

Segue também o link para o áudio do poema e um vídeo com a declamação de Serginho no sarau do Binho (o link está ao lado)



SOLDADOS DE CHUMBO

Quando apagam a luz                                                                                            

Da última cela do meu pavilhão                                                                           

Um clarão vem iluminar a minha janela                                                                

É a lua

Não sei o que seria de mim se não fosse ela

O sentinela caminha de um lado para outro

Acende um cigarro...

Um carro passa por trás da muralha

Não posso vê-lo, apenas ouvi-lo

Não posso tocá-lo, mas posso senti-lo


É engraçado

Não fosse pelo andar desengonçado

Pela deselegância

Diria que o homem fardado

Se parece com alguns soldados de chumbo

Que ganhei na minha infância

Minha mãe trabalhava

Por quanto tempo durasse o dia

E acaso, não fosse o bastante

Seu esforço tinha a noite como companhia

Às vezes, me levava para o emprego

E eu ficava confinado à área de serviço

Talvez porque a patroa não gostasse de negros

Circulando pelos cômodos do seu luxuoso cortiço

 

Quando acordava de bom humor

Danava-se a falar do moleque sem cor

Que queria que fosse engenheiro

Sei que minha mãe sonhava pra mim

Um futuro semelhante

Mas quando olhava pro neguinho

Com ar de maloqueiro

Arriava o semblante e sofria

Como quem descobre uma infinita distância

Entre desejo e realidade

 

Certo dia

A madame me deu de esmola

A Guarda Real Britânica

Em formato de miniaturas

Criaturas sem pernas ou braços

Que o pequeno engenheiro enjoou

Eu tinha, lá em casa

Uma tribo com dezenas de caixas de fósforos

Daquelas amarelas

Com a figura de um índio estampado nos rótulos

Vivazes, meus amigos me eram sagrados

E estavam sempre prontos

Para conterem a invasão

Dos soldadinhos amputados

Outros mais me foram dados

Mas minha tribo sempre vencia

Por mais que o pelotão crescesse

Era como se pelo menos ali, naquele dia

O neguinho também vencesse

 

Eu era pequeno, gigante na minha imaginação

Não creio que o fabricante mais astuto

Pudesse imaginar que seu produto

Fosse além de acender cigarro ou fogão


À noite

Quando minha mãe voltava pra casa

Silenciávamo-nos a todo custo

Para velarmos seu sono tão justo

Depois, cada peça do meu invento

Ia para debaixo do colchão

Ao lado do bloco de cimento

Que sustentava minha cama

A dois palmos do chão

Quando Deus achou que era a hora

Resolveu levar minha santa senhora

Antes que ela pudesse perceber

No que a vida me transformou

Se foi ganância, fraqueza ou necessidade

Não sei

Ninguém nunca me explicou

 

Amanhã, é dia de visita

Meu filho, a criança mais bonita

Virá me conhecer

Vou rezar até o amanhecer

Para que a vida também não o torne um bandido

Para que seja talvez como minha mãe sonhou 

Um profissional bem-sucedido

E se acaso eu perceber

Que ainda existe uma infinita distância

Entre desejo e realidade

Maior terá que ser meu pensamento

Mais forte há de ser minha vontade!

 

Abraços fraternos

Giba

Eu, Etiqueta

Querid@s,

Mais um presente da Polyana do G1. Um texto de 1984, de Carlos Drummond de Andrade. Tem tudo a ver com a campanha e os vídeos feitos por vocês para a Campanha Criar 2012!

Segue também um vídeo feito pelo pessoal da Universidade Federal do Ceará, com o poema interpretado pelo saudoso Paulo Autran...



EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.


Abraços fraternos, 
Giba

Decisões

Querid@s,

Ainda no G1, a Polyana nos presentou com esta poesia que fala um pouco de nossas discussões sobre projeto de vida e do processo de avaliação...

DECISÕES

Talvez tenhamos que tomar decisões muito difíceis em nossas vidas,
Pensar no que vai ser melhor,
ou até fazer coisas que gostamos,
mas antes de tudo viaje em teus pensamentos


Será que temos postura?
O que é postura?
Eu tenho?
Procure ter postura para assumir o que faz,
pois está sendo vigiado,
o tempo não para.


Antes de tudo pense em tomar decisões,
tenha uma postura correta
não porque os outros mandam,
mas, sim, porque você sabe o que está pensando.
Reflita e faça o melhor
Você é único!

Abraços fraternos,
Giba

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Panela do Diabo - Pedro Bandeira

Querid@s,

Mais uma vez o Orlando do G3 nos presenteia com um texto falando da "gente simples". Desta vez foi o texto "Panela do Diabo", publicado no livro "Malasaventuras, safadezas do Pedro Malasartes" do Pedro Bandeira.


"Lá na vila apareceu
o safado Zé Trabuco
Que encontrando dois tropeiros
Propôs logo jogar truco.


Zé trabuco era danado,
era o mestre das mentiras.
Trapaceou tanto no jogo
que enganou os dois caipiras


Dos tropeiros, enganados,
foi-se todo seu dinheiro,
pois até dezoito mulas
carregou o trapaceiro.


Malasartes foi à vila
pra comprar fumo de rolo.
Encontrou os dois tropeiros
Em um grande desconsolo.


- Pedro amigo, nos ajude!
Veja só o que aconteceu:
num joguinho, o Zé Trabuco
com trapaça nos venceu.
Zé Trabuco jogou sujo
e o dinheiro ele ganhou.
Enganando todos nós,
até as mulas nos levou!


Pedro foi até a venda
pra fazer uma comprinha.
Quis feijão, cebola e sal,
além de uma panelinha.


Foi pra beira da estrada
esperar o trapaceiro.
Temperou bem o feijão
e acendeu um bom braseiro


Quando ouviu tropel de mulas,
Pedro o plano começou.
Pôs no chão a panelinha
e o braseiro ele apagou


Agachou-se ali do lado
bem por onde o outro vinha
e ficou muito quieto
vigiando a panelinha.


Com as mulas, pela estrada,
Zè Trabuco foi chegando
e de longe percebeu
a panela fumegando.


Surpreendido, achou que aquilo
com certeza estava errado,
e chegando perto
foi falando debochado


- Ô caipira, o que é que é isso?
É burrice ou é um jogo?
Como pode cozinhar
na panela sem o fogo?


Malasartes nem ligou
pro deboche do safado.
Remexeu a panelinha
e cuspiu para o outro lado:


- Não sou bobo, meu amigo,
desse fato a mim eu gabo.
A vasilha onde eu cozinho
é a panela do diabo!


Eu ganhei esta panela
e isso foi mais do que sorte,
de um notável feiticeiro
a quem eu salvei da morte.
A panela é infernal,
das vasilhas é a rainha,
pois é só pedir a ela
e sem fogo ela cozinha!


Meu feijão está quase pronto
e é hora do jantar.
Se o amigo não se ofende
poderia então provar?


Pra falar toda a verdade,
eu tempero muito mal.
O que acha meu amigo,
não estará faltando sal?


Zé Trabuco se abaixou,
foi provar da panelinha.
Descobriu que estava cheia
e que estava bem quentinha.


- Nada falta, está no ponto!
espantou-se Zé Trabuco.
- Essa mágica é tão grande
que vai me deixar maluco.
Um milagre tal qual esse
eu desejaria ter.
O que acha, meu amigo,
de a panela me vender?


Zé Trabuco ofereceu
o dinheiro que trazia,
mas o Pedro Malasartes
achou que era ninharia:


- Sua oferta, meu compadre,
poderia se rmelhor,
pois eu acho que o valor
da panela é bem maior.
A panela é raridade,
não se encontra em todo lado,
Se essas mulas incluir,
o negócio está fechado.


Zé Trabuco lá pensou:
outras mulas e dinheiro
haveria de ganhar
de qualquer tolo roceiro.


No entanto, ele pensava
que magia igual àquela
nunca mais iria achar
a não ser a tal panela.


A bendita da panela,
com qualquer caldinho ralo,
a enganar a toda gente
haveria de ajudá-lo.


- Mas é claro que eu aceito!
Leve logo tudo embora,
Eu só quero essa panela
para mim sem mais demora!


Malasartes foi embora
feliz com a esparrela
e deixou o Zé Trabuco
a sorrir para a panela.


O idiota do Trabuco,
muito tempo ele esperou,
mas dali para diante
a panela só esfriou! "



Este personagem que inspirou Pedro Bandeira, também inspirou Mazzaropi no filme "As aventuras de Pedro Malazartes", filmado nos estúdios da Vera Cruz, em Itú, no interior de São Paulo.

Segue o trailer do filme e ficha técnica.


Abraços fraternos,
Giba

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Operário em Construção

Querid@s,

Segue o texto sugerido pela Raíssa, do G1, com um curta premiado, de 2007 a partir do poema:

"Operário em construção" de Eduardo Nascimento e Pedro Canotilho 

Infelizmente, o blogspot limita a publicação direta de vídeos ao Youtube e  vídeos downloadados. E este vídeo está hospedado no Vimeo. 

 Mas fica a dica!

O Operário Em Construção

Vinicius de Moraes

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade

Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.